Dia:24.Mar.2017

HISTÓRIA DE SARZEDO

Das origens


O surgimento do povoado que originou o município de Sarzedo, está ligado como grande parte dos munícipios mineiros, a exploração mineral. Se no século XVII, a busca do ouro determinou uma maior interiorização da população orientando a ocupação do território, no século XX a extração do minério de ferro e o seu transporte propiciaram o surgimento dos diversos núcleos de povoamento na região sudeste do Brasil. Oficialmente descoberto na última década do século XVII, o ouro motivou a ocupação do seio do território brasileiro determinando o povoamento da região das minas pela formação dos primeiros núcleos populacionais que se fixaram próximos aos cursos d’água, onde era mais fácil a sobrevivência.  Foi á penetração dos bandeirantes paulistas no interior das Minas Gerais no século XVIII, aprisionando índios e apossando das terras a procura do ouro e pedras preciosas que fizeram surgir os primeiros arraiais mineiros. Os primeiros grupos, inicialmente estabelecidos de forma temporária, assumiram depois um caráter da ocupação permanente na medida em que se intensificou o processo de exploração aurífera. Foram fundadas assim, os arraiais e vilas que formaram a capitania de Minas Gerais.

O município de Sarzedo está inserido neste contexto. Constituído apenas do distrito sede o município possui uma área de 62,17 km quadrados e está localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Resultado da ocupação inicial do entorno da Estação Ferroviária construída no decorrer do início da segunda década do século XX, e inaugurada no final da mesma década, o antigo povoado foi transformado em município através da Lei n° 12.030, de 21 de dezembro de 1995. Pertencendo primeiramente a Comarca de Sabará, território descoberto pelos paulistas em 1669, onde Borba Gato encontrou grande quantidade de ouro e atraiu um contingente de pessoas muito grande para o local que em 09 de julho foi elevada a vila, com o título de Villa Real de Sabará, confirmada por El-Rei em carta de 31 de outubro de 1712. A referência mais antiga encontrada sobre a região de Sarzedo conta que em 05 de março de 1743, foi dada por Gomes Freire de Andrada, Governador da Capitania de Minas Gerais, uma Carta de Sesmaria a BALTHAZAR FERNANDEZ SARZEDAS, declarando ser o mesmo:

                         

      (...) possuidor de huns mattos e terras no ribeirão de Bom Jesus do Contage

        que fazia barra no rio Peroupeba a baixo da paragem chamada Funil,

        freg. do curral de El Rey, Comarca de Sabará, por posses que lançara

       e outras que comprara.

           Nesse documento está expressa a obrigatoriedade de demarcação das referidas terras, e ressaltado que foram dadas ao seu proprietário para povoar e cultivar. Pode ter daí originado o nome do curso d’água que corta a região, o RIBEIRÃO SARZEDAS, citado no DICCIONÁRIO GEOGRÁPHICODO BRAZIL DE 1899 por Alfredo Moreira Pinto:

                            

  SARZEDAS: Ribeirão do Estado de Minas Gerais: nasce na serra de José Vieira,

  no  dist. De Contagem, banha o dist. de Carmo da Capela Nova do Betim e 

 Deságua no rio Paraopeba. Recebe o ribeirão do Pintado e da Boa Esperança.

 Nesse com o nome de Bento Martins.

Curso d’água citado também em 1909, por Nelson de Senna na descrição do distrito de Capella Nova de Betim, que depois deu nome ao povoado. Ao se referir as cachoeiras e cursos d’água da região afirmou:


                                     Esta freguezia é cortada por três ribeirões: o Sarzeda, que nasce na Serra

                                      de José Vieira, na freguezia de Contagem, e entra nesta freguezia pela

                                      fazenda da Cachoeira, atravessando a mesma freguezia pelo lado do sul

                                      desagua no Paraopeba, depois de ter recebido o ribeirão da Serra da Boa

                                      Esperança pelo lado esquerdo, este ribeirão abunda em peixes de todas

                                     as espécies conhecida

O distrito de Capella Nova de Betim, conforme nos contou esse antigo pesquisador mineiro, foi fundado no século XVIII por José Rodrigues Betim, sua mulher, filhos, irmãos e cunhados, entre a zona de Contagem, Santa Quitéria e o Morro de Matheus Leme, tendo sido freguesia criada pela Lei Provincial n° 522 de 23 de setembro de 1851. Em 1901, Capella Nova de Betim passou a fazer parte do município de Santa Quitéria, conforme também mostrou Nelson de Senna:

                                        Foi creada pelo Art. 1° da Lei n° 319, de 16 de setembro de 1901, que

                                        tem por sede a pequena Villa de Santa Quitéria (a nove léguas de Belo

                                        Horizonte), no vale do rio Paraopeba, e em região muito agrícola. Café,

                                        cereais, gado, toicinho,- eis a riqueza desse município composto de 4

                                        distritos: os da Villa e os de Capella Nova de Betim, Contagem das

                                        Abóboras e Varsea do Pantano (que o povo alterou para Vargem do

                                        Pantâna). (...) Todos esses distritos foram desmembrados do município

                                 de Sabará para constituir o município de Santa Quitéria.

Essa região da Vargem do Pantâna, que mais tarde se dividiu nos municípios de Ibirité e Sarzedo, foi povoada ainda nos tempos do Primeiro Império Brasileiro, inicialmente com a fundação da Fazenda do Pantâna, de propriedade do Alferes Antônio José de Freitas. Mais tarde, por causa da partilha de bens determinada pela morte do mesmo, essa grande propriedade foi então dividida em 7 (sete) novas fazendas: Santa Rosa ( que vai originar o município de Sarzedo), Retiro do Jatobá, Rola Moça, Mato Grosso, Canal, Urubu e Vargem( que deu origem ao povoado de Ibirité.

O povoado de Vargem do Pantâna foi elevado á categoria de distrito de Sabará no ano de 1891. Após a transferência da capital mineira, de Ouro Preto para Belo Horizonte, no final do século XIX, o distrito de Vargem do Pantâna passou a pertencer ao recém- criado município de Santa Quitéria e depois a Contagem por época da sua elevação á município, em 1939. Mais tarde, passou a fazer parte do município de Betim, de dezembro de 1948 até a determinação da criação do município de Ibirité a 21 de março de 1958. Nesta data o legislativo betinense aprovou uma resolução de n° 15, Art. 1° “ficam autorizados os distritos de Ibirité e Sarzedo a promoverem a sua emancipação, a fim de constituírem um novo município desmembrado de Betim”. Porém, a real emancipação de Sarzedo só ocorreu em 21 de dezembro de 1995 e sua instalação oficial em 1° de fevereiro de 1997.

Conforme nos mostraram os antigos pesquisadores da história e da memória da região, o local onde surgiu o povoado de Sarzedo era anteriormente dividido em grandes fazendas de produção agrícola e criação de gado. Uma das maiores propriedades, de acordo com o registro de Antônio Afonso de Magalhães, a Fazenda da Cachoeira de Santa Rosa de Lima englobava todo o território hoje ocupado pelo município. De acordo com o relato desse antigo morador da região, a velha fazenda era assim chamada pelo fato de ter construída no seu terreno, uma ermida que abrigava a imagem de Santa Rosa de Lima.

De acordo com ele, no início do século XX a antiga Fazenda de Santa Rosa de Lima foi hipotecada por 09 (nove) contos de réis. Os juros se acumularam e não foi possível ao proprietário fazer o pagamento. A consequência dessa situação foi o leilão do imóvel, arrematado pela família Ferreira passos residente em Nova Lima. Devido a essa transferência de propriedade, a fazenda ficou por muito tempo abandonada e tornou-se ponto de parada de viajantes e tropeiros que vinham de Crucilândia, Bonfim, Rio Manso, Brumadinho e outros lugares para vender as suas mercadorias na capital de Minas Gerais. Por essa ocasião a ermida existente no lugar foi violada e a imagem de porcelana de Santa Rosa de Lima foi roubada, permanecendo desaparecida até os dias atuais.

Também consta que a cachoeira da Fazenda de Santa Rosa possuía um grande volume de água e foi considerada a maior queda d’água da região apontada por Nelson de Senna em 1909 como:

                                       (...) a melhor cach. do dist. E a mais vizinha de Bello Horizonte á do rib.

                                       Sarzedas, na Fazenda de Santa Rosa, a 24 km. da capital e conhecida

                                       como “ Cachoeira do Thiré”, por ali haver residido o ilustre Prof. e Eng.

                                       de Minas Dr. Arthur thiré.

Impulsionado pela construção do ramal férreo da Estrada de Ferro Central do Brasil, linha do Paraopeba, construída a partir da segunda década do século XX, iniciou-se a transformação do território da Fazenda Santa Rosa em um pequeno núcleo de povoamento distribuído linearmente acompanhando os trilhos. O levantamento das edificações e a consequente inauguração do Conjunto da Estação Ferroviária de Sarzedo em 20 de junho de 1917 foi que determinou o processo de ocupação na região e favoreceu o surgimento do povoado que cresceu lentamente no seu entorno.

Região predominantemente rural até o final do século XIX, o local onde hoje se encontra o centro da cidade coincide com o lugar onde está situado o conjunto arquitetônico da estação ferroviária. Conforme destacado pelos depoimentos orais de antigos moradores a construção da estrada de ferro e a inauguração da estação mudaram a vida do pequeno grupo de agricultores que habitavam a região.

                                        “ A vida naquela comunidade continuava sem nenhuma novidade até

                                         em 1911 e 1912, tudo começou a ser transformado, do dia para a noite

                                         começou a chegar gente de todos os lados, de todas as raças.

                                         Chegavam carroças de burros carregadas de ferramentas e mudanças.

                                         O povo invadia tudo. Era o começo da construção da Estrada de Ferro

                                         Central do Brasil, bitolas largas, rumo a Paraopeba. (...) daí a poucos

                                         dias já havia armazém, padaria, farmácia, oficina. As famílias que

                                         chegavam construíam barracos de paus coberto de zinco. Outros

                                         invadiam casas vazias e paióis, era uma verdadeira confusão para nós

                                         que não estávamos acostumados com isso.” 

Os antigos moradores pertencentes á comunidade local, fazendeiros e trabalhadores rurais que habitavam a região foram então convidados a trabalhar com seus carros de boi no transporte de materiais para construção da estrada de ferro “puxando pedras, areia e cimento”. A vida da comunidade local e sua relação com o trabalho foram completamente modificadas a partir daí. Até mesmo as tradicionais festas populares, muitas vezes realizados no espaço onde foi construída a estação foram mudadas de lugar. Aos poucos o trabalho da ferrovia, na extração e no transporte do minério também substituiu a agricultura e a criação de animais.

                                         “ Com essa transformação a nossa comunidade já não plantava mais

                                          nada. As chácaras foram morrendo no mato, acabamos não moendo

                                          mais cana e nem fazendo farinha. A criação de porcos foi acabando,

                                          não havia mais tapumes, o povo e os animais arrasaram tudo”.

A região do entorno da linha férrea, mais precisamente em volta do conjunto da estação passou então a ser ocupada por trabalhadores que chegaram para fixar residência no lugar, dando início a expansão do povoado. Foram construídas pela Estrada de Ferro Central do Brasil, na parte abaixo e tangenciando a linha, algumas moradias para abrigar funcionários da estrada de ferro. Na parte superior, casas particulares foram erguidas aproximadamente no início da década de 1930. Eram, de um lado, de propriedade de Antônio Afonso Magalhães e construídas especialmente para alugar ou vender aos novos moradores, e do outro, que foi ocupado a partir da década de 1940, pertencentes a Eduardo Cozac, erguidas para abrigar o escritório e a residência de funcionários da empresa Mineral do Brasil, a pioneira na exploração do minério de ferro na região. Conforme relatos.

                                      “ Antônio Afonso Magalhães comprou uma parte da antiga Fazenda

                                      Cachoeira, da linha para cima, em 1932 mais ou menos e construiu casas

                                      onde hoje é a rua que hoje é Eduardo Cozac e construiu a venda dele, a

                                      Casa Santo Antônio, que era uma casa de gêneros, secos e molhados,

                                      armarinho..., uma venda de tudo. Até então ali não tinha nada. Depois 

                                      ele foi vendendo as casa, uma por uma, loteou o terreno até ali perto do

                                     hospital e da antiga igreja que foi destruída perto da rua Geraldina Pereira  

                                      Freitas que é o nome da mãe dele. É aquela rua que sai lá no hospital

Com relação ao nome SARZEDO, além das fontes citadas, existe uma versão de que o nome está associado a um antigo funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil: Engenheiro espanhol: Francisco Sarzedo. Embora muitos funcionários da Estrada de Ferro Central do Brasil tivessem sido realmente homenageados como patronos de estações ferroviárias em Minas Gerais, essa versão carece de fontes documentais que lhe dê sustentação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, Valdemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Rio de Janeiro. ED. Itatiaia, 1995

------------, Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Edição Comemorativa dos dois séculos e meio da Capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte. 1971

CARTA DE SESMARIA. Concedida ao Alferes Antônio José de Freitas – entre 1822-1831

CARTA DE SESMARIA. Concedida a Balthazar Fernandez Sarzedas. Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano IX fascículo II e I, janeiro e junho de 1904, p. 402 e 403

CARTILHA DE SARZEDO – Aqui se prepara o futuro, julho a outubro de 2006. Sarzedo- MG – Secretaria de Planejamento. 2005

SARZEDAS, Baltazar Fernandez. Terras no ribeirão do Bom Jesus de Contagem. Fazenda do Curral Del Rey. GS. 05 de março de 1743. SC. 80. GIV. Revista do Arquivo Público Mineiro. Códice Catálogo de Sesmaria. Ano XXXVII, 1998, vol. II, Série: Instrumentos de Pesquisa, rolo 16. G.3

SENA, Nelson Coelho de. Annuário histórico e Chrorográfico de Minas Gerais. Ano III. Vol.2. 1909. P.993

SILVA, José Joaquim da. Tratado de Geografia Descritiva Espacial da Província de Minas Gerais. Coleção Mineiriana. Série: Clássicos. Fundação João Pinheiro. 1997

Texto manuscrito inédito ainda não publicado cujas informações sobre a história da região foram descritas por Antônio Afonso de Magalhães e cedidas pela família.

Elaboração: Jair Mari Filho e Julião Gomes – Departamento de Cultura e Turismo de Sarzedo

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